Portugal conquistou 18 distinções internacionais nas edições auditadas de 14 concursos, além de nove lugares no pódio do XIII CNCCA. Por trás dos números estão estratégias, custos, validação técnica, projeção das marcas e, em alguns casos, efeitos comerciais já visíveis.
As cervejas portuguesas conquistaram 18 distinções internacionais nas edições de 2025 e 2026 analisadas pelo Beer-Learning: sete medalhas de ouro, seis de prata e cinco de bronze. A estas juntaram-se dois títulos mundiais de estilo no World Beer Awards 2026.
No plano nacional, o XIII Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais — Vertente Artesanal distribuiu nove lugares de pódio por marcas portuguesas. A The Black Ginjinha Murders, da Dois Corvos, venceu a categoria Experimental e foi eleita Melhor Cerveja Nacional 2025.
Os resultados oferecem motivos para celebração, mas também levantam perguntas. O que representa realmente uma medalha? Até que ponto um prémio influencia o consumidor? A participação nos concursos serve para promover marcas, aperfeiçoar receitas ou conquistar novos mercados? E será que todas as cervejeiras portuguesas têm condições para competir internacionalmente?
Para compreender o significado que existe por trás das tabelas de resultados, o Beer-Learning reuniu os testemunhos de profissionais com experiências e modelos de negócio muito diferentes. Os relatos convergem na importância da validação externa, mas mostram que uma medalha pode cumprir funções bastante distintas: gerar orgulho local, confirmar uma experiência cervejeira, orientar melhorias técnicas, aumentar a procura ou apoiar a reputação internacional de uma marca.
Um resultado internacional forte, mas concentrado
As 18 distinções internacionais identificadas pertencem a apenas três entidades: Praxis, Super Bock Group e Going Gremlin. O desempenho demonstra qualidade e diversidade, mas também revela uma presença portuguesa internacional ainda muito concentrada.
O maior número de prémios surgiu no World Beer Awards 2026. Entre os resultados portugueses encontram-se lagers, cervejas de inspiração belga, IPA, NEIPA, Imperial Stout, cervejas de trigo e produtos sem álcool ou sem glúten.
As distinções de maior alcance foram conquistadas pela Praxis Grape Ale e pela Super Bock Selecção 1927 Japanese Rice Lager. Depois de vencerem as respetivas categorias nacionais, ambas foram eleitas as melhores do mundo nos seus estilos: Grape Ale e Rice Beer.
No Brazilian International Beer Awards 2025, a Going Gremlin conquistou prata com a Crazy Heads, uma Double IPA desenvolvida com a italiana Rebel’s Brewery, e bronze com a Ummja Varava, uma Baltic Porter criada em colaboração com a cervejeira letã Labietis.
As medalhas como reconhecimento da marca e orgulho local
Para Nuno Dias, da Praxis, a participação em concursos internacionais de renome e a conquista de medalhas têm importância direta no reconhecimento da marca. O prémio cria uma oportunidade de comunicação, mas o resultado depende da capacidade da cervejeira para aproveitar essa projeção.
A Praxis preparou antecipadamente a comunicação associada ao World Beer Awards. A participação não foi tratada como uma ação isolada: existia uma estratégia para divulgar os resultados e ampliar o seu efeito.
Antes da projeção nacional ou internacional, Nuno Dias identifica uma primeira dimensão de natureza local. As medalhas ajudam a aproximar a cervejeira da cidade onde está implantada, reforçam a confiança no trabalho realizado e permitem que a comunidade reconheça a marca como parte da sua identidade.
“A médio e longo prazo, isso ajuda a sedimentar uma marca que não acaba, uma marca para sempre”, afirma.
No plano nacional, compara uma cerveja portuguesa premiada a um atleta que conquista uma medalha nos Jogos Olímpicos. Mesmo quem não conhecia anteriormente a marca pode descobri-la através do prémio e sentir que o resultado também representa o país.
O cervejeiro reconhece, contudo, que a participação tem custos elevados. Inscrições, preparação e envio das amostras, logística e comunicação exigem recursos que não estão ao alcance de todas as empresas. Essa desigualdade ajuda a explicar algumas críticas feitas aos concursos e impede que a ausência de uma marca nas listas de vencedores seja interpretada automaticamente como falta de qualidade.
Nuno Dias valoriza também a composição dos painéis internacionais. No caso do World Beer Awards, destaca a presença de profissionais com diferentes experiências, funções e origens geográficas, cuja competência é reconhecida pela própria indústria.
Para o responsável da Praxis, o efeito positivo pode ultrapassar a cervejeira premiada. Uma distinção chama a atenção para a cerveja produzida em Portugal e ajuda a afirmar a sua qualidade num país historicamente associado ao vinho.
A mensagem final é coletiva: “A maré cheia levanta todos os barcos.”
Prémios para validar experiências e melhorar cervejas
Na Going Gremlin, os concursos assumem uma função particularmente relevante porque a marca trabalha frequentemente com ingredientes pouco comuns, receitas experimentais e colaborações internacionais.
Jaime André recorda que a primeira distinção da marca chegou pouco depois do lançamento da sua Rye Imperial Stout. A cerveja, resultante de uma campanha de financiamento coletivo, conquistou em 2022 o segundo lugar na categoria Ale do Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais, na primeira edição com uma vertente dedicada a cervejas comerciais.
Mais tarde, diferentes criações da Going Gremlin receberam reconhecimento nos Untappd Community Awards. Jaime André distingue esses resultados dos concursos avaliados por júris profissionais: os prémios da plataforma exprimem diretamente a preferência dos consumidores e podem indicar quais cervejas apresentam maior potencial no mercado.
A estreia internacional aconteceu no Brazilian International Beer Awards 2025. A Crazy Heads, uma Double IPA com bergamota, laranja e limão, recebeu prata numa família de estilos especialmente competitiva. A Ummja Varava, produzida com líquenes, sal marinho e malte fumado, conquistou bronze na categoria Herb and Spice Beer.
Embora a Ummja Varava tenha ficado em terceiro lugar, recebeu uma nota comercial de 94 pontos, superior aos 92 pontos atribuídos à Crazy Heads. O exemplo demonstra que a posição no pódio e a pontuação não medem exatamente a mesma coisa: cada cerveja compete dentro da sua categoria e contra adversários diferentes.
Para uma marca que explora sabores pouco convencionais, a avaliação de especialistas ajuda a responder a uma dúvida essencial: a cerveja é apenas diferente ou está também tecnicamente bem executada?
“A margem de erro é enorme e é muito fácil alguma coisa correr mal”, observa Jaime André.
A principal vantagem não termina na medalha. As fichas de avaliação dos jurados oferecem informações que podem ser aplicadas nas produções seguintes. A Going Gremlin utilizou esse feedback para corrigir pormenores num lote posterior da Imperial Stout e fez o mesmo com a Watermelon Mint Freak, uma American Wheat com melancia e menta.
Para Jaime André, essa aprendizagem pode ser ainda mais importante do que a promoção da marca. O concurso valida uma ideia, identifica imperfeições e permite transformar a opinião dos jurados em melhoria concreta do produto. Se o prémio também despertar a curiosidade do consumidor e o levar a procurar a cerveja, o reconhecimento ganha uma segunda dimensão.
Da trajetória internacional ao impacto comercial do CNCCA
A Cervejeira Vadia participou pela primeira vez no CNCCA em 2025 e colocou duas cervejas no pódio da vertente artesanal. A Vadia Labs Diabo Vermelho, uma Flanders Red Ale, venceu a categoria Ale; a Vadia Nautika, uma Baltic Porter, terminou em terceiro lugar na categoria Lager.
A Vadia foi a única marca a conseguir dois lugares de pódio em famílias diferentes nesta edição. Para Nicolas Billard, os resultados foram especialmente significativos por terem surgido na estreia da cervejeira no concurso nacional.
A participação no CNCCA acrescentou uma dimensão portuguesa a uma trajetória competitiva que começou no estrangeiro. A Vadia concorre internacionalmente desde 2012 e, segundo Billard, acumulou ao longo desse percurso mais de 35 prémios.
A primeira dessas distinções foi uma medalha de prata conquistada pela Vadia de Trigo no Brussels Beer Challenge de 2012. Nicolas Billard identifica esse resultado como a primeira medalha internacional obtida por uma cerveja artesanal portuguesa.
O valor dos prémios reside, para a Vadia, na validação externa e independente da qualidade e da consistência do seu trabalho. As distinções ajudam a fortalecer a confiança dos consumidores, aumentam a visibilidade junto de distribuidores e parceiros e reforçam o posicionamento da marca no segmento artesanal.
A experiência mais recente permitiu observar também um efeito comercial. Depois da divulgação dos resultados do CNCCA, a cervejeira registou um aumento do interesse, da curiosidade e da procura pela Vadia Labs Diabo Vermelho e pela Vadia Nautika.
Neste caso, a medalha não ficou limitada à comunicação ou ao prestígio abstrato. A distinção levou mais consumidores a procurar concretamente os produtos vencedores.
“Mais do que números, estes prémios representam o reconhecimento do esforço diário de toda a equipa”, resume Nicolas Billard.
Os resultados nacionais reforçaram, assim, uma história construída ao longo de mais de uma década: começaram com uma distinção internacional pioneira e chegaram a dois pódios numa competição portuguesa.
Concursos escolhidos como parte de uma estratégia internacional
No Super Bock Group, a decisão de participar em concursos segue uma abordagem seletiva e planeada. Segundo Tiago Brandão, responsável pela equipa de Investigação, Desenvolvimento e Inovação, são avaliados anualmente tanto os prémios em que o grupo participa como os produtos que serão apresentados.
Essa seleção considera, em primeiro lugar, a reputação internacional da distinção. Um prémio reconhecido pode ser utilizado na comunicação dos produtos nos vários mercados onde as marcas do grupo estão presentes.
A empresa pondera também a qualidade e as credenciais cervejeiras do processo de avaliação. Para Brandão, o reconhecimento concedido por painéis internacionais complementa a preferência que os consumidores portugueses manifestam diariamente.
A diversidade geográfica dos jurados é particularmente valorizada. Um painel multinacional tende a estar mais distante das marcas e das preferências específicas do mercado português, permitindo que os produtos sejam avaliados por profissionais com diferentes referências culturais e cervejeiras.
“É importante complementar o reconhecimento e preferência que o consumidor todos os dias nos atribui em Portugal com um reconhecimento internacional”, explica.
O grupo participa neste tipo de avaliação há décadas. Tiago Brandão destaca o percurso no Monde Selection, no qual atribui ao Super Bock Group um recorde mundial de reconhecimento internacional consecutivo.
No World Beer Awards 2026, o grupo conquistou distinções com seis cervejas: Super Bock Abadia, Selecção 1927 Czech Golden Lager, Selecção 1927 Munich Dunkel, Super Bock 0.0%, Super Bock Sem Glúten, Selecção 1927 Japanese Rice Lager e Selecção 1927 Bavaria Weiss. A Japanese Rice Lager recebeu o título mundial de melhor Rice Beer.
Os resultados cobrem áreas bastante distintas, das lagers e cervejas de trigo aos segmentos sem álcool e sem glúten. Essa amplitude acompanha a ideia de que os concursos avaliam os produtos e as suas credenciais de qualidade, não apenas a notoriedade das marcas.
A estratégia de “certificação e reconhecimento” descrita por Brandão estende-se, aliás, para além da cerveja. O grupo também apresenta a avaliação internacional de produtos de outras categorias do seu portefólio, incluindo águas minerais naturais com e sem gás.
O circuito nacional cumpre uma função diferente
A leitura das competições internacionais fica incompleta sem o circuito nacional. Portugal conta com dois concursos de natureza distinta.
O Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais utiliza a linguagem dos estilos cervejeiros e da avaliação técnica. Desde 2022, inclui uma vertente destinada a cervejas artesanais portuguesas em comercialização.
Na XIII edição dessa vertente, as provas cegas realizaram-se em 7 de março de 2026, na TapRoom Dois Corvos, em Lisboa. Os resultados foram apresentados publicamente em 14 de março.
Foram atribuídos três lugares em cada uma das categorias Ale, Lager e Experimental. A Vadia venceu entre as Ale, a Barona Brewing Company conquistou o primeiro lugar entre as Lager com a Monda, e a Dois Corvos liderou a categoria Experimental com a The Black Ginjinha Murders.
Depois de vencer a sua categoria, a criação da Dois Corvos foi escolhida no Best of Show como Melhor Cerveja Nacional 2025. A cervejeira colocou ainda a Black is The New Orange no segundo lugar da categoria Experimental.
O Concurso Nacional de Cervejas Tradicionais Portuguesas tem outro enquadramento. Integrado nos concursos dedicados aos produtos tradicionais portugueses, valoriza fatores como genuinidade, tradição, qualidade alimentar e ligação ao território.
As duas competições não devem, portanto, ser avaliadas como se tivessem exatamente a mesma missão. Uma aproxima-se da cultura técnica dos estilos e da avaliação cervejeira; a outra insere a cerveja no património agroalimentar português.
Nem todas as ausências representam falta de qualidade
Entre os 14 concursos internacionais auditados, foram encontradas distinções portuguesas em apenas dois: o World Beer Awards e o Brazilian International Beer Awards.
Esse dado não significa que as cervejas portuguesas tenham sido rejeitadas nos restantes concursos. Para conquistar uma medalha é necessário, antes de tudo, estar inscrito. Sem informação completa sobre as inscrições, a ausência de Portugal numa lista de vencedores não permite distinguir entre não participação e participação sem prémio.
Os custos ajudam a explicar essa realidade. Além da taxa de inscrição, uma cervejeira tem de assegurar lotes adequados, estabilidade do produto, embalagem, transporte internacional, documentação e, posteriormente, comunicação. Para produtores de menor dimensão, a decisão de participar pode representar um investimento significativo.
Os testemunhos confirmam ainda que as empresas procuram retornos diversos:
- O reconhecimento da marca, o orgulho local e a projeção coletiva da cerveja portuguesa.
- A valorização, a validação de receitas experimentais e o feedback técnico dos jurados.
- O reforço da reputação e um aumento efetivo da procura pelas cervejas premiadas.
- Integração das distinções numa estratégia seletiva de avaliação e reconhecimento internacional.
Em conjunto, mostram que o valor de uma medalha depende do concurso escolhido, da credibilidade do júri, dos objetivos da cervejeira e do que acontece depois da divulgação dos resultados.
Portugal compete com indústria, produção artesanal e colaboração internacional
O retrato formado pelos resultados portugueses não pertence a um único modelo de cervejeira. Essa coexistência constitui um dos aspetos mais positivos do levantamento. A cerveja portuguesa surge associada a estilos tradicionais e contemporâneos, produtos de grande distribuição, experiências de pequena escala e categorias com relevância crescente, como as cervejas sem álcool e sem glúten.
A fragilidade continua a ser a concentração da presença internacional. Um setor não se mede apenas pelo número de medalhas, mas o aumento da participação permitiria conhecer melhor a competitividade das cervejeiras portuguesas e evitar que a representação do país dependesse de tão poucas empresas.
Os concursos também não substituem a preferência dos consumidores, a consistência da produção ou a sustentabilidade comercial de uma marca. Uma medalha é uma avaliação realizada num determinado momento, sobre uma amostra específica e dentro das regras de uma competição.
Ainda assim, quando é atribuída por um painel credível e utilizada com rigor, pode produzir efeitos concretos: ajuda uma marca a ser descoberta, reforça a confiança, orienta melhorias técnicas, abre conversas com parceiros e demonstra que Portugal é capaz de competir em diferentes segmentos do panorama cervejeiro.
Consulte o relatório completo: Portugal no mapa dos concursos de cerveja — edições auditadas de 2025-2026.
O documento reúne os números dos 14 concursos internacionais analisados, o calendário das competições, as 18 distinções internacionais portuguesas, o pódio do XIII CNCCA — Vertente Artesanal e as fontes utilizadas no levantamento.
Discover more from Beer-Learning
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
